domingo, 12 de setembro de 2010

Divertimento

Capa da edição atual, da Civilização Brasileira

            Dizia um professor meu que a gente só consegue traduzir bem aquilo que entendeu bem. E se essas conversas de bar em formato textual são uma tradução (e, se a gente for bem abrangente nas coisas, tudo é uma tradução) eu não sei bem o que vai sair dessa vez. Porque depois de ler “Divertimento” eu não fiquei com aquela sensação que romances rasos deixam na gente, aquela sensação de tudo mastigadinho. Pra ser sincero, ainda continuo me perguntando algumas coisas; de maneira que aviso: não esperem um resumo linear.

            Comecei a ler “Divertimento” achando que encontraria uma história sobre (ou que pelo menos envolvesse) o Carnaval. Vai ver isso foi condicionamento das informações que encontrei na internet sobre o livro, mas a verdade é que, fora o nome e a capa, não tem a ver com Carnaval, até que surjam outras interpretações que me convençam. Bom, tem outra coisa a ver, sim: foi escrito no Carnaval de 1949, ou seja, lá se vão sessenta carnavais, já que li esse livro agora, Carnaval de 2009.

            Como outros livros de Cortázar, temos aqui um grupo de amigos unidos pelos debates sobre arte e cultura, um grupo do qual faz parte também um gato (que, como o próprio gato de Cortázar, tem nome de gente famosa) e temos ainda a arte como força deflagradora da grande ação do livro.

            Basicamente, o conflito se desenvolve quando em torno de uma pintura, que parece ser uma previsão do futuro. Essa idéia é reforçada por uma espécie de mago/espírita que, a certa altura do livro, junta-se ao grupo, adensando o clima do romance (embora a orelha do livro fale em nouvelle).

            Esse, o espiritismo (por falta de termo melhor...), é um tema pouco tratado em Cortázar e, só por isso, a leitura de “Divertimento” já vale a pena. Mas tem mais: junto com o tema, vemos crescer a tensão ao longo do texto, conforme o mistério vai se estendendo ou enrolando (imagem bem adequada...). Nos momentos mais tensos, vemos personagens violentos e usando palavrões (o que não é lá muito comum em Julio).

            A atitude final de Inseto pode ser mais um impulso a essa gratuidade de agressões, mas também serve como contrapeso para o lado mais espiritual do texto.

            É, acho que ficou claro que, se tem algum sentido a mais no livro, eu não o pesquei. Quem sabe perguntando pra Eufemia...

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