sábado, 11 de setembro de 2010

Um tal Lucas

Capa da edição da Nova Fronteira

            Se por um lado “Um tal Lucas” é um livro de contos, por outro é um romance, por um outro é um diário, por um quarto é um e por muitos outros é um montão de coisas diferentes.

            O recheio dessa obra são textos em sua maioria curtos (uma ou duas páginas), divididos em três partes (I, II e III – mais uma vez Cortázar não demonstra lá muita imaginação na hora de nomear as partes do livros que escreve) bem-humorados, cáusticos às vezes e que contêm mais palavrões do que o comum em Cortázar (que são bem poucos – e a, bem da verdade, aqui aparecem só alguns “filho da puta” e “puta que pariu”, mas ainda assim é mais do que o geral da obra do cara).

            A parte I fala de Lucas e começa com um ótimo texto em que Lucas se vê como uma hidra, dono de cabeças que quer decepar – isso tudo metaforicamente, claro. Além disso, nessa primeira parte a gente fica sabendo como Lucas lida com questões como o patriotismo, literatura e o ensino (foi professor de Espanhol na França). Nessa parte a gente começa a conhecer como é Lucas, suas tendências a cronópio e piantado.

            A parte II não tem Lucas como personagem. Ou melhor dizendo, eu até acredito que tenha, mas ali no meio da coisa toda, não explícito. De forma que Lucas é mais uma presença quase imperceptível do que um personagem que protagonize os episódios. Nessa parte encontram-se textos que lembram alguns com o melhor estilo de “Histórias de cronópios e de famas” e “Último round”. Alguns exemplos são “Como se passa ao lado”, em que a gente descobre que os gatos são telefones (é, telefones), “Nadando na piscina de ‘gofio’” e “Maneiras de estar preso”. Aqui há tremenda liberdade e, parece, é onde Cortázar teve mais liberdade de viajar na maionese para escrever o que lhe desse na veneta. Há também um bom texto de crítica política: “Um pequeno paraíso”, que nos conta que há um país em que o povo vive orgulhoso por levar na corrente sangüínea uns peixinhos dourados.

            Na parte final, voltam as histórias sobre (e com Lucas). Nesses últimos contos, ficamos sabendo que esse senhor já septuagenário tem extrema vergonha dos barulhos que faz no banheiro, tem muitos amigos cronópios e engraxa estranhamente os sapatos. Conforme o livro vai chegando ao fim, tenho impressão de que os textos se tornam mais cheios de significado, mais próximos de nos dar a certeza de que Cortázar tem muito de Lucas (e muito bem vice-versa). Temos, por exemplo, “Lucas, suas discussões partidárias” em que o tal discute com amigos a velha questão da literatura puramente inteligível. Em “Lucas, seus sonetos”, aparece um soneto de Lucas que se pretende quase um palíndromo – pode ser lido no sentido inverso, mas ele tem outro sentido quando lido assim. Há uma tradução para o Português que, segundo Lucas, foi feita por Haroldo de Campos (e eu me pergunto se isso é verdade, porque, segundo uma nota, Lucas e Haroldo eram amigos). Interessante texto, tanto pelo conteúdo narrativo como pela experiência poética.

            Dois dos últimos textos finais são meus favoritos do livro, um pouco por destoarem do tom de galhofa do resto do livro, sendo mais sérios (mas mão totalmente, claro). “Lucas, suas longas caminhadas” fala da distância e acho que serve de metáfora para a velocidade com que as coisas acontecem em um relacionamento. E, especialmente, “Lucas, seus hospitais (II)”, que parece falar de um Lucas totalmente Cortázar, de uma Sandra totalmente Carol Dunlop, de uma Ursinha. Talvez não seja, talvez seja uma cosmoviagem de um autonauta admirador em especial de um certo livro de Julio, mas, então e ainda assim, é um lindo texto.

2 comentários:

  1. É um livro cheio de gírias portenhas, de difícil leitura para quem lê língua espanhola mas não viveu em Bs As. Não tem outro texto que tenha achado engraçado como esse, ainda choro quando leio.

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  2. Olá, amigo.
    Seria muito bacana contar com um texto seu sobre esse texto e suas peculiaridades - como esse foi um dos livros do JC que li em português, não percebi nada dessas peculiaridades.
    Se quiser, escreva para o nosso e-mail contando sua experiência com o livro!

    Abraços!

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